 |
Allan Kardec - 1804-1869 |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Livro:
O CÉU E O INFERNO
Publicado
em 1865 – Paris, França. Tradução Da 4ª edição (1869).
Tradutor:
GUILLON
RIBEIRO. Publicado pela FEB – Federação Espírita do Brasil –
www.febnet.org.br. Versão
digital por: ERY LOPES - © 2007. CAPÍTULO V – SUICIDAS – Pag.
192…
LUÍS
E A PESPONTADEIRA DE BOTINAS
Havia sete
para oito meses que Luís G…, oficial sapateiro, namorava uma
jovem, Victorine R…, com a qual em breve deveria casar-se, já
tendo mesmo corrido os proclamas do casamento.
Neste pé
as coisas, consideravam-se quase definitivamente ligados e, como
medida econômica, diariamente vinha o sapateiro almoçar e jantar em
casa da noiva.
Um dia, ao
jantar, sobreveio uma controvérsia a propósito de qualquer
futilidade, e, ambos insistindo em suas opiniões foram as coisas ao
ponto de Luís abandonar a mesa, protestando não mais voltar.
Apesar
disso, no dia seguinte veio pedir perdão. A noite é boa
conselheira, como se sabe, mas a moça, prejulgando talvez pela cena
da véspera o que poderia acontecer quando não mais a tempo de
remediar o mal, recusou-se à reconciliação.
Nem
protestos, nem lágrimas, nem desesperos puderam demovê-la. Muitos
dias ainda se passaram, esperando Luís que a sua amada fosse mais
razoável, até que resolveu fazer uma última tentativa: —
Chegando a casa da moça, bateu de modo a ser reconhecido, mas a
porta permaneceu fechada, recusaram abrir-lha.
Novas
súplicas do repelido, novos protestos, não ecoaram no coração da
sua pretendida. “Adeus, pois, cruel! —
exclamou o pobre moço — adeus para sempre.
Trata de procurar um marido que te estime tanto como eu.” Ao
mesmo tempo a moça ouvia um gemido abafado e logo após o baque como
que de um corpo escorregando pela porta. Pelo silêncio que se
seguiu, a moça julgou que Luís se assentara à soleira da porta, e
protestou a si mesma não sair enquanto ele ali se conservasse.
Decorrido
um quarto de hora é que um locatário, passando pela calçada e
levando luz, soltou um grito de espanto e pediu socorro. Depressa
acorre a vizinhança, e Victorine, abrindo então a porta, deu um
grito de horror, reconhecendo estendido sobre o lajedo, pálido,
inanimado, o seu noivo.
Cada qual
se apressou em socorrê-lo, mas para logo se percebeu que tudo seria
inútil, visto como ele deixara de existir. O desgraçado moço
enterrara uma faca na região do coração, e o ferro ficara lhe
cravado na ferida.
(Sociedade
Espírita de Paris, agosto de 1858)
1. Ao
Espírito S. Luís. — A moça, causadora involuntária do suicídio,
tem responsabilidade?
— R.
Sim, porque o não amava.
2. Então
para prevenir a desgraça deveria desposá-lo a despeito da
repugnância que lhe causava?
— R. Ela
procurava uma ocasião de descartar-se, e assim fez em começo da
ligação o que viria a fazer mais tarde.
3. Neste
caso, a sua responsabilidade decorre de haver alimentado sentimentos
dos quais não participava e que deram em resultado o suicídio do
moço?
— R.
Sim, exatamente.
4. Mas
então essa responsabilidade deve ser proporcional à falta, e não
tão grande como se consciente e voluntariamente houvesse provocado o
suicídio…
— R. É
evidente.
5. E o
suicídio de Luís tem desculpa pelo desvario que lhe acarretou a
obstinação de Victorine?
— R.
Sim, pois o suicídio oriundo do amor é menos criminoso aos olhos de
Deus, do que o suicídio de quem procura libertar-se da vida por
motivos de covardia.
Ao
Espírito Luís G…, evocado mais tarde, foram feitas as
seguintes perguntas:
1. Que
julgais da ação que praticastes?
— R.
Victorine era uma ingrata, e eu fiz mal em suicidar-me por sua causa,
pois ela não o merecia.
2. Então
não vos amava?
— R.
Não. A princípio iludia-se, mas a desavença que tivemos abriu-lhe
os olhos, e ela até se deu por feliz achando um pretexto para se
desembaraçar de mim.
3. E o
vosso amor por ela era sincero?
— R.
Paixão somente, creia; pois se o amor fosse puro eu me teria poupado
de lhe causar um desgosto.
4. E se
acaso ela adivinhasse a vossa intenção persistiria na sua recusa?
— R. Não
sei, penso mesmo que não, porque ela não é má. Mas, ainda assim,
não seria feliz, e melhor foi para ela que as coisas se passassem de
tal forma.
5.
Batendo-lhe à porta, tínheis já a ideia de vos matar, caso se
desse a recusa?
— R.
Não, em tal não pensava, porque também não contava com a sua
obstinação. Foi somente à vista desta que perdi a razão.
6. Parece
que não deplorais o suicídio senão pelo fato de Victorine o não
merecer… É realmente o vosso único pesar?
— R.
Neste momento, sim; estou ainda perturbado, afigura-se me estar ainda
à porta, conquanto também experimente outra sensação que não
posso definir.
7.
Chegareis a compreendê-la mais tarde?
— R.
Sim, quando estiver livre desta perturbação. Fiz mal, deveria
resignar-me… Fui fraco e sofro as consequências da minha fraqueza.
A paixão cega o homem a ponto de praticar loucuras, e infelizmente
ele só o compreende bastante tarde.
8. Dizeis
que tendes um desgosto… Qual é?
— R. Fiz
mal em abreviar a vida. Não deveria fazê lo. Era preferível tudo
suportar a morrer antes do tempo. Sou portanto infeliz; sofro, e é
sempre ela que me faz sofrer, a ingrata. Parece-me estar sempre à
sua porta, mas… não falemos nem pensemos mais nisso, que me
incomoda muito. Adeus.
Por isso
se vê ainda uma nova confirmação da justiça que preside à
distribuição das penas, conforme o grau de responsabilidade dos
culpados. É à moça, neste caso, que cabe a maior responsabilidade,
por haver entretido em Luís, por brincadeira, um amor que não
sentia. Quanto ao moço, este já é de sobejo punido pelo sofrimento
que lhe perdura, mas a sua pena é leve, porquanto apenas cedeu a um
movimento irrefletido em momento de exaltação, que não à fria
premeditação dos suicidas que buscam subtrair se às provações da
vida.
Leia
Kardec - Estude as Obras da Codificação Espírita.